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segunda-feira, 22 de julho de 2013

"Se descobrires..."




Eles trocam um olhar distante por entre cabeças que se movem, por entre luzes que piscam várias cores. Aparecem, desaparecem, procuram-se, encontram-se. Estão numa festa ao ar livre. Ele sorri-lhe lá de longe, ela finge que não é nada consigo. Ele levanta os braços teatralmente, como quem pergunta então? Ela acha-lhe graça, cede-lhe um sorriso, ele leva a mão aberta ao peito e sorri-lhe de uma forma cómica.
Ele aproxima-se, furando pela multidão, ela deixa esmorecer o sorriso, preocupada com a ousadia dele. Agora está diante dela, inclina-se para a frente, fala alto para se fazer ouvir sobre a música da festa. Estás boa? Já não te via há tanto tempo!, diz. Aldrabão, nem me conheces! Não?!, admira-se. Não, diz ela, com veemência. Olha, afirma ele, não sei dizer o teu nome mas tenho a certeza que já estive contigo antes. Ela diz que não com a cabeça. Um amigo aproxima-se, ela vira-se e começam a conversar, deixando-o suspenso num embaraço. Ele desanima e vai-se embora.
Volta a vê-lo ao fim da noite, quando vai a sair da festa, três, quatro metros à frente. Pensa que há algo nele que a atrai, morde o lábio a ponderar uma fantasia, e se...
Aproxima-se dele já lá fora, no passeio, movida por um impulso, afunda os dedos no seu cabelo ao mesmo tempo que lhe dá um beijo prolongado no rosto. Depois diz-lhe um segredo: Descobre quem eu sou e o meu coração é teu. Deixa no ar uma gargalhadinha fugaz, volta-se e vai-se embora depressa, a pensar que deve estar doida para ter feito aquilo. Ele, espantado, grita-lhe, diz-me ao menos o teu nome! Na, na, na... replica ela a rir-se, sem se voltar para trás.
Ele está no estúdio de fotografia, ao fim do dia, a fumar um cigarro antes de sair. Os seus olhos passeiam ao acaso pelas fotografias penduradas na parede à sua frente até se concentrarem numa concreta. Raparigas em pose de ballet. De súbito, reconhece-a. Eu sabia!, pensa, sentindo o coração acelerar. Há quanto tempo foi aquilo?, pergunta-se. Um ano e meio, dois no máximo.
Ela dança uma coreografia solitária frente ao espelho, no estúdio, movendo-se com graciosidade feminina. Quando a música acaba fica a pairar um momento no silêncio, observando-se no reflexo, presa a algum pensamento. Depois, como que despertando, abaixa-se para apanhar uma toalha, limpa o rosto, volta-se e tem um sobressalto ao vê-lo ao fundo do estúdio, de pé, segurando um ramo de flores. Aproxima-se devagarinho, muito espantada, tapando a boca com a mão.
Vim reclamar o teu coração, anuncia ele, oferecendo-lhe as flores. Ela recebe-as, atrapalhada, ao mesmo tempo encantada e embaraçada. Como é que soubeste...
Se descobrires, responde ele a sorrir, dou-te o meu coração...
Por Tiago Rebelo em Breves Histórias, 
Correio da Manhã, Domingo

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